Gabrielle Cavalcante - Universidade de Brasília (Brasil)
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Defesa de Palamedes. Górgias
n. 17, may-aug. 2016
Defense of Palamedes. Gorgias Cavalcante, G. (2016). Górgias. Defesa de Palamedes. Archai, n.º 17, may‑ aug., p. 201‑218. DOI: http://dx.doi.org/10.14195/1984‑249X_17_9
Palavras‑chave: Tradução, Defesa de Palamedes, Górgias. Keywords: Translation, Defense of Palamedes, Gorgias.
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Introdução A Defesa de Palamedes, junto com o Elogio de Hele‑ na e o Sobre o não‑ser ou sobre a natureza1, constituem toda a obra de Górgias que sobreviveu até nossos dias e que podemos considerar textos completos. Fora eles, temos fragmentos de outros textos e testemunhos de alguns autores antigos, os quais foram pela primeira vez reunidos na coleção Die Fragmente der Vorsokra‑ tiker, de Diels & Kranz.
n. 17, may-aug. 2016
Gabrielle Cavalcante, ‘Górgias. Defesa de Palamedes’, p. 201-218
Apesar da crescente revalorização da qual a obra de Górgias vem sendo alvo2, a Defesa de Palamedes, especificamente, não sofreu sorte tão grande quanto os dois outros textos remanescentes: poucos são ainda os estudos e traduções desse texto se comparados aos demais textos de Górgias3. Nesse sentido, cremos fazer‑se necessário uma maior dedicação a ele. Não pretendemos, aqui, fazer uma análise detalhada desse discurso, mas apenas propor uma nova tradução ao português brasileiro. Portanto, nossa pequena introdução limitar‑se‑á a apresentar rapidamente o mito de Palamedes afim de contextualizar o texto de Górgias. Assim como no Elogio de Helena, o texto de Górgias gira em torno de um personagem mitológico aparentemente bem conhecido pelos gregos, um herói participante das primeiras campanhas da guerra de Tróia: Palamedes, filho de Náuplio e Clímene, que teria sido injustamente acusado de traição por Odisseu e condenado à morte.
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O mito de Palamedes nos chegou de modo fragmentado4 e o nome do herói não é sequer citado por Homero na Ilíada ou na Odisseia. Sua fonte mais an-
tiga seriam os Cantos Cíprios, datados do século VIII a.C, cuja autoria é geralmente atribuída a Estasino de Chipre e que nos chegou de modo fragmentado. Proclo, na Crestomatia, fez um resumo dos onze livros que comporiam os Cantos Cíprios, no qual Palamedes aparece como sendo o responsável por desmascarar o plano forjado por Odisseu para não ir à guerra de Tróia. Segundo se conta, quando os gregos foram a Ítaca buscar Odisseu para a expedição que iria à Tróia, o herói fingiu estar louco para não ser levado, prendendo um cavalo e um boi em um arado e conduzindo ‑os pelo campo. Odisseu conseguiu enganar a todos menos Palamedes, o qual colocou Telêmaco na frente do arado a fim de que o próprio Odisseu revelasse sua sanidade. Daí, supostamente, teria nascido o ódio de Odisseu por Palamedes que ao desmascará‑lo obrigou ‑o a deixar sua terra e ir com os gregos para Tróia. Haveria ainda três tragédias sobre o mito de Palamedes das quais nos restam apenas fragmentos: de Ésquilo (fr. 181 e 182), Sófocles (fr. 478‑481) e Eurípides (fr.578‑590), além de um discurso de um aluno de Górgias, Alcidamas, o que nos faz deduzir que os atenienses do V século a.C. – época em que teria vivido Górgias – estavam bastante familiarizados com o mito de Palamedes. Segundo a tradição, Palamedes se destaca por sua inventividade. A ele são atribuídas diversas invenções como, por exemplo, algumas letras do alfabeto, os números, pesos e medidas, táticas militares e o jogo de dados, o que poderia, também, ter despertado a inveja de Odisseu. Muitas são as variáveis do mito de Palamedes e as possíveis causas da injusta acusação levada
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